Bolsonaro Não é a Versão Brasileira de Trump, é Muito Pior

Antonio Proenca

 

O voto em Bolsonaro é motivado por uma indignação semelhante ao voto em Trump, a maioria de pessoas brancas, classe-média desiludida e revoltada, e claro, os grupos de fascistas e neonazistas que abertamente apoiaram ambos os candidatos. Mesmo assim compará-lo com o gov. Trump é perda de tempo e inocência. O quadro geral do Brasil é grave para fazermos tal comparação e podemos afirmar categoricamente que o gov.

Bolsonaro é muito pior que Trump. Pior no sentido de que Trump apenas precisou tocar o barco de uma economia que já se recuperava, com emprego em alta. No Brasil temos uma crise generalizada muito grande para ser revertida em pouco tempo. Além disso a campanha que ajudou eleger Bolsonaro foi muito mais feia, imunda, corrupta e envolta de polêmicas que a de Trump, com coerção de funcionários, caixa 2, lavagem de dinheiro e fake news até acusando o adversário Haddad de pedófilo. E o falso moralismo daqueles que levantaram a voz para defender seu candidato dizendo que não tinham corruptos de estimação cai quando vemos, por exemplo, seus líderes no congresso, três envolvidos em corrupção, Fraga, Ônix e Pauderney.

 

Fantoches de distração

 

A única comparação coerente nesse momento entre Bolsonaro e Trump é da incoerência de ambos. Extremamente vaidosos, arrogantes e agindo por impulsos, além de demagogos, nunca sabemos se o que eles dizem será palavra e posto em prática. São figuras polêmicas e que por gostarem de flashes (Trump muito mais que o Bolsonaro) servem como distração para as câmeras enquanto medidas sérias ocorrem nos bastidores. E é isso que eu penso que vai ocorrer, a mídia corporativista alimentada pela distração através de discursos rasos, falas polêmicas , de baixo nível, discussões com jornalistas, boicotes, retaliações e muita fofoca(o brasileiro é particularmente chegado em fofoca) enquanto a austeridade neoliberal impõe sua vontade contra a maioria da população.

 

Fake News

 

O brasileiro é o usuário de internet que fica mais horas por dia conectado no mundo inteiro. Pelo alto índice de analfabetismo funcional se torna presa fácil da propaganda que circula em velocidade e quantidade fenomenais nas redes sociais. Um estudo recente diz que 90% dos eleitores de Bolsonaro acreditam em fake news. Temos amplificadores de conspirações e notícias falsas que têm alcance e audiência maiores que vários canais de TV ao mesmo tempo. Figuras públicas como Nando Moura, Olavo de Carvalho, e muitos outros que continuarão fazendo o trabalho sujo de manter seguidores presos aos seus discursos com retóricas conspiratórias. Como verdadeiras seitas propagandistas e falaciosas, deixariam Alex Jones cheio de inveja. Infelizmente o trabalho de desinformação que esses sujeitos fazem é enorme e levará muito tempo para desfazê-lo.

 

Temer 2.0

 

O gov. Bolsonaro é a continuação da agenda imposta a força pelo impopular e desastroso governo de austeridade do Temer, com aprovações em avalanche de reformas e cortes, incluindo cortes de ministérios, orçamentos, reforma trabalhista que jamais seriam aprovadas caso houvesse consulta popular. A reforma da previdência e precarização da nossa já precária força de trabalho e inseguranca empregatícia, além de mais repressão e violência.

 

Apoio dos EUA

 

Em 2013, Edward Snowden, ex-agente do serviço de espionagem americana, denunciou que o Brasil era o principal alvo de espionagem dos EUA. O Wikileaks denunciou que Temer foi informante da CIA. A agenda neoliberal é empurrada a força no Brasil com apoio dos EUA para voltarmos a ser tentáculo estratégico dos EUA nas Américas. O Brasil foi ousado quando se soltou um pouco dessas rédeas, ao alinhar-se com os BRICS e consolidar o bloco do Mercosul. Ao alinhar-se com a China, também cutucou os EUA que não permitiriam que essa autonomia durasse muito tempo. Trump verá em Bolsonaro uma ilha no meio de enorme rejeição internacional que ambos sofrem, e esse amor já se mostra recíproco, além, claro, de perigoso no cenário atual que o mundo vive.

 

Neoliberalismo 2.0 (friendly fascism)

 

Bolsonaro não tem interesse em fazer governo para a classe-média, menos ainda para os mais pobres. Seu assessor Paulo Guedes nos deixa isto claro, que, alinhado com a já mencionada agenda neoliberal friendly fascist, Bolsonaro é outro governo deles (da elite, donos do poder), para governar para eles (elite, donos do poder). Se ainda há dúvidas sobre isso basta ver, por exemplo, como reagiu a bolsa de valores e o mercado em ambas as eleições (Trump e Bolsonaro). A nomeação e aceitação de cargo no Ministério da Justiça por Moro também deixa claro o corporativismo bem sólido de governo e justiça brasileiras. Moro colocou Lula, principal rival de Bolsonaro, na cadeia e durante 7 vezes desmentiu que aceitaria algum cargo político. Aceitou o convite de Bolsonaro sem pensar e em suas palavras, ficou “honrado”. Nunca a hipocrisia foi tão explícita.
Paulo Guedes também defende mais privatizações e sua reforma tributária não deixa certo quem irá se beneficiar, mas podemos ter ideia de quem será beneficiados no governo montado sob encomenda para a elite do poder. Infelizmente ao contrário do que motivou os votos de muitos inocentes eleitores de Bolsonaro, não há absolutamente nada mais do mesmo, status quo, mais establishment do que o que esse governo propõe.

 

Violência

 

Será carro-chefe da política de Bolsonaro obviamente. O Brasil lista como dos países mais violentos das Américas e o respeito aos direitos humanos é quase nulo. A eleição de Bolsonaro já vem manchada de sangue com relatos por todo o país de pessoas sendo mortas ou atacadas por eleitores de Bolsonaro. A polarização continua muito forte e tóxica. E o que surpreende ainda mais é constatar que a campanha de Bolsonaro martela na intensificação da repressão policial com uso de violência ilimitada contra, inclusive, movimentos sociais e aumento de armas vendidas na população com a ideia de que com isso você irá diminuir a violência. Mais uso de ferramentas de violência para diminuir violência? É papo que soa como melodia para os fabricantes de armas e seus lobbistas.

 

Congresso descaracterizado mas conservador

 

Não será fácil para ninguém lidar com um país com fratura exposta pela crise generalizada, o gov. encontrará dificuldades também no legislativo, não sabemos como o congresso descaracterizado se comportará sem a hegemonia do MDB que sofreu previsível perda de assentos do MDB (perdeu metade dos assentos) e ascensão do PSL partido “incógnita” provavelmente representando os setores mais conservadores e retrógrados do país. As bancadas da bala, rural e principalmente a bancada evangélica cresceram e são bancadas tão retrógradas que não deveriam nem ter metade do poder que já têm. Ironicamente o PT, apesar dos infinitos ataques midiáticos continua sendo o partido com a maior bancada no congresso. Precisará também de esforço para conseguir aliancas, ainda mais com possível afastamento do PDT e uma nova aliança à esquerda.

 

Vice fardado

 

Como se não bastassem todas as ameaças graves que pairam contra a frágil democracia brasileira, temos ainda a presença de uma figura obscura e autoritária como General Mourão, vice-presidente que em poucas palavras mostra o quão danoso pode ser. Se algo ocorre com o Bolsonaro e o vice tem que assumir tudo mais distante de progresso podemos esperar.

 

Mídia corporativa brasileira

 

Sempre esteve devidamente alinhada com os mesmos interesses, sendo controlada por 6 famílias, ironicamente, de alguns meses para cá, vemos leves farpas trocadas entre jornalistas e até anti-petistas fervorosos tentando colocar freio no aumento do ódio. Isso se confirma também nas ameaças, boicotes e retaliações que jornalistas que vão contra a onda Bolsonaro vêm sofrendo frequentemente. Nosso ranking de liberdade de imprensa ja é desastroso, mas nada que não possa ficar ainda pior. Bolsonaro deve manter isolamento da mídia corporativista, colocando-a em quarentena e falando apenas com as que o apoiam como a evangélica Record, espécie de Fox News com bíblia e o SBT, antigo aliado da ditadura. Essa estratégia de Bolsonaro de se manter calado funcionou durante sua campanha depois da facada.

 

Esperança?

 

Enquanto houver resistência, sim. 42 milhões de eleitores brasileiros (mais de 2 Estados de São Paulo) não votaram em ninguém. 47 milhões votaram no outro candidato. São 90 milhões que não votaram em Bolsonaro. A classe dos artistas também se coloca majoritariamente contra o fascismo de Bolsonaro. O governo vai ter que conviver com esse barulho. Mesmo com tanta resistência assistimos estarrecidos a essa mancha escura que toma conta de algumas partes do planeta com a agenda mais carregada de tudo de pior que o sistema tem a oferecer, destruição de políticas sociais, destruição e ataque ao meio-ambiente e concentração de poder, além do aumento da violência e miséria.

Ainda estamos no início do inverno, que começou de alguns anos para cá. O início do inverno consegue ser suportável quando temos uma ideia de quando será o fim dele. No Brasil não temos essa ideia.

 

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